9.4.17

A imprevisibilidade dos EUA é um problema

Na Síria, Trump fez exactamente o contrário de que sempre defendeu. Em 60 horas, depois do desumano episódio do uso de armas químicas, passou de desinteressado pelo futuro de Asad, focado apenas no combate ao ISIS, a punidor deste por ter passado a linha vermelha.
O bombardeamento punitivo não se inclui, para já, em nenhuma estratégia que se conheça para o destino de Assad, da Síria ou da região. Nada sabemos sobre o nível de cooperação ou antagonismo com a Rússia que apoia o regime, ou com a Turquia que combate os curdos que os EUA apoiam.
A presidência de Trump é e será assim. Sem caminho claro, sem planeamento adequado, feita de gestos e contradições. Será imprevisível, como disse aqui.
A imprevisibilidade de Trump é um problema  porque é exercida por uma grande potência num mundo em crise. Na mesma Síria dos bombardeamentos decorre uma guerra que tem imensos paralelos com a Guerra Civil espanhola, no Leste da Europa, a Rússia age como se querendo recuperar um lebensraum, na Coreia do Norte, não se sabe o que é delírio e o que é caminho para a guerra. A China parece numa deriva nacionalista que pode ter tentações quando houver que disfarçar a desaceleração econômica. A União Europeia está em fragilização acelerada, entre Brexit, incapacidade de gerir co. Equilíbrio social e territorial a criação da moeda única e a tolerância face a semiditadores dentro de casa.
O relógio da história parece continuar a progredir como entre 1929 e 1945. Oxalá alguém lhe inverta o sentido, rapidamente, mas não está à vista quem nem quando.

18.3.17

O silêncio é uma das consequências mais perversas da privaçãoenvergonhada da liberdade.

Quem quiser pode continuar a ignorar o problema, mas uma democracia que tem um Ministério Público que tem um problema com os direitos, liberdades e garantias corre sérios riscos.
Eu percebi, pelas razões que todos conhecem, a dimensão do problema há mais de uma década. Mas até eu acreditei que parte do que se tornou no meu problema era a dificuldade especifíca de lidar com casos de "moral panic", aliás uma questão estudada internacionalmente e com antecedentes (que podiam ter ajudado a evitar erros graves).
Estava, contudo, errado. Há sectores nas magistraturas portuguesas que têm um problema geral com a liberdade. O problema não é este caso, nem o anterior ou o próximo. São também todos aqueles de que nunca chegaremos a saber. 
Quem se deixar cegar pelo que pensa de cada caso concreto nunca chegará à raiz da questão: falta cultura democrática na justiça e sobram os abusos onde devia imperar a mais rigorosa defesa dos direitos, liberdades e garantias. Aliás, hoje no Público, José Pacheco Pereira, põe, no essencial, a questão no sítio certo. As suas convicções sobre Sócrates só tornam o seu argumento mais forte. Estão a por em causa a liberdade e, digo eu, infelizmente estamos demasiado calados. 
O silêncio é uma das consequências mais perversas da privação envergonhada  da liberdade.